PORÇÃO Chukat-Balak

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Parashá: Chukat-Balak Data: Shabat, 27 de Junho de 2026

A Palavra que Escapa

Olá, escrevemos de Tiberíades numa quinta de manhã, com o Kineret parado lá embaixo como um espelho. Faltam dois dias para o Shabat, e esta semana a Diáspora lê duas porções de uma vez, Chukat e Balak.

As duas têm um fio em comum: a boca. Moshé devia falar a uma rocha e acabou batendo nela; Bilam foi pago para amaldiçoar e só conseguiu abençoar. Uma palavra que faltou, uma palavra que sobrou, e o que cada uma fez com quem a disse.

Esta edição traz a parashá com os comentaristas, a halachá da semana, a mishná, um trecho do Tanya, uma história, a palavra hebraica e um pouco do Israel que vemos daqui.


A Parashá — Bemidbar 19-25

Falar, bater, abençoar

No meio do deserto, Miriam morre, e o poço que acompanhava o povo por mérito dela seca de uma vez. O povo reclama de sede, e o Eterno diz a Moshé para falar à rocha diante of todos, que ela daria água. Moshé levanta o cajado e bate na pedra, duas vezes. A água jorra, mas a resposta vem dura: por isso ele não entraria na Terra (Bemidbar 20:8-12).

  • A visão de Rashi: Rashi lê o erro na troca do gesto. Era para falar, e Moshé bateu. Tirar água de uma pedra pela palavra teria sido o milagre maior, e o povo veria de perto que a Torá tem força sobre a matéria. Ao bater, entregou um milagre menor (Rashi, Bemidbar 20:12).
  • A visão do Rambam: O Rambam aponta para outro lado. O pecado foi a raiva. Moshé se vira para um povo com sede e dispara "ouçam, rebeldes". Quem ouvia podia concluir que o Eterno também estava irado com eles, sendo que o pedido por água era justo. O erro mora no tom (Rambam, Oito Capítulos).
  • A visão do Ramban: O Ramban discorda dos dois. Como o próprio Eterno mandou levar o cajado, bater não foi falta nenhuma. O tropeço foi a frase "podemos nós tirar água desta rocha?", como se a água dependesse deles, e não de Quem os enviava (Ramban, Bemidbar 20:8).

Três leituras, um acordo de fundo: numa hora decisiva, a palavra saiu errada.

A segunda porção mostra a moeda virada. Balak, rei de Moav, tem medo de Israel e contrata Bilam, um adivinho de fama, para amaldiçoar o povo de longe. Bilam vai, contra o que Deus já tinha avisado. No caminho, a jumenta empaca, vê o anjo que o homem não enxerga, e abre a boca para reclamar (Bemidbar 22).

No alto do monte, pronto para amaldiçoar, Bilam abre a boca e sai bênção. Três vezes ele tenta, três vezes vira louvor. Olhando o acampamento, diz a frase que o judeu repete até hoje ao entrar para rezar: "Ma tovu ohalecha Yaakov", que boas são as tuas tendas, Jacó (Bemidbar 24:5).

Rashi explica o que ele viu: as aberturas das tendas não se encaravam, cada família guardava o recato da outra. O Talmud completa: diante daquilo, Bilam reconheceu um povo digno de a Presença morar nele (Bava Batra 60a). A boca que vinha para ferir foi obrigada a abençoar.


Halachá na Prática

O que se diz ao entrar

A bênção de Bilam não ficou no deserto. Ela abre a reza da manhã e é o que muita gente diz ao cruzar a porta da sinagoga: "Ma tovu ohalecha Yaakov". É, que se saiba, a única frase do sidur que saiu da boca de um não-judeu, e ainda por cima de alguém que tinha vindo amaldiçoar.

Nem todos engoliram isso com tranquilidade. O Maharshal, sábio do século dezesseis, contava que pulava esse verso e começava a reza no versículo seguinte, justamente porque quem disse "Ma tovu" foi Bilam, e a intenção dele era maldição (Responsa do Maharshal 64). Há quem diga o verso, há quem prefira começar depois. A tradição guardou a bênção e o desconforto com a origem dela, lado a lado.


A Mishná da Semana — Pirkei Avot 5:19

עַיִן טוֹבָה, וְרוּחַ נָמוּכָה, וְנֶפֶשׁ שְׁפָלָה, מִתַּלְמִידָיו שֶׁל אַבְרָהָם אָבִינוּ. עַיִן רָעָה, וְרוּחַ גְּבוֹהָה, וְנֶפֶשׁ רְחָבָה, מִתַּלְמִידָיו שֶׁל בִּלְעָם הָרָשָׁע.

"Olho bom, espírito humilde e alma modesta: dos discípulos de Avraham, nosso pai. Olho mau, espírito soberbo e alma ávida: dos discípulos de Bilam, o ímpio."

Repara onde a mishná coloca a diferença. Bilam não era um qualquer; a tradição o trata como profeta de grande alcance, capaz de ouvir o que poucos ouviam. O talento não o salvou. O que separa um discípulo de Avraham de um discípulo de Bilam é o olho, generoso ou invejoso, e não o tamanho do dom. Dois homens podem ter a mesma boca poderosa e apontá-la para lados opostos.


O Tanya da Semana

A fala que cria

A chassidut lê o poder da fala num registro alto. O mundo foi criado por dez falas, e a palavra humana carrega um eco disso: o que se diz molda o que se vive. Bilam tinha uma boca poderosa e quis usá-la para destruir, e foi virado do avesso. Moshé, o maior dos profetas, tropeçou uma vez na palavra, e o tropeço pesou. O Tanya insiste que a fala é coisa séria, ponte entre o de dentro e o de fora, e que por ser tão alta ela não se deixa dobrar a serviço do mal sem cobrar o preço.


Tehilim da Semana — Salmo 141

שִׁיתָה יְהוָה שָׁמְרָה לְפִי נִצְרָה עַל־דַּל שְׂפָתָי

"Põe, ó Eterno, uma guarda à minha boca; vigia a porta dos meus lábios." (Tehilim 141:3)

Davi pede o que faltou nas duas histórias da semana: alguém que segure a boca um instante antes de a palavra sair.


Uma História da Tradição

Três bocas no crepúsculo

Conta a mishná que dez coisas foram criadas no último fio de luz antes do primeiro Shabat, no entardecer em que o mundo já estava quase pronto (Avot 5:6). Três delas são bocas.

A boca da terra, que se abriu para engolir Korach na semana passada. A boca do poço, que deu água a Israel pelo mérito de Miriam, e que nesta semana se cala quando ela morre. E a boca da jumenta de Bilam, que falou para deter o dono no caminho. Como se, desde antes do começo, já estivesse guardado que muito do bem e do mal do mundo passaria pelo que uma boca faz, ou deixa de fazer.


A Palavra da Semana

דָּבָר — davar

Da raiz דber, a mesma palavra quer dizer "palavra" e "coisa". No hebraico, dizer já é meio fazer: os Dez Mandamentos são as Asseret haDibrot, as dez falas, e a tradição diz que o mundo foi criado por dez delas. Falar, nessa língua, nunca é só falar.

Israel de Perto

A conta da água

A parashá toda tem sede. Miriam morre e a água some, o povo clama, Moshé bate na rocha atrás de água. Deserto é isso, a vida girando em torno de onde achar o próximo gole. Escrevemos da beira do Kineret, o mesmo lago de onde Israel ainda hoje puxa boa parte da água que bebe. Quando o nível baixa num verão seco, o país acompanha pelo noticiário como quem olha o rosto de um parente. A sede do deserto não ficou tão no passado assim.

Acendimento das Velas de Shabat

Sexta-feira, 26 de junho de 2026
Horários calculados a cerca de 18 minutos antes do pôr do sol.

Cidade Horário Cidade Horário
São Paulo17:11 Salvador16:59
Rio de Janeiro16:59 Recife16:53
Brasília17:32 Fortaleza17:16
Belo Horizonte17:08 Manaus17:43
Curitiba17:18 Porto Alegre17:16

Não está na sua cidade? Confira em hebcal.com ou chabad.org.

"Que o seu Shabat seja de boca guardada e mesa cheia, e que só a bênção escape."

Shabat shalom,

SOCIEDADE ECHADITA DO BRASIL

P.S. Essa semana tem texto novo no blog sobre a lei mais enigmática da Torá: a vaca vermelha, que abre a parashá de Chukat. Boa leitura.

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